Eu escutei muitas coisas negativas durante a minha vida. Comentários desagradáveis, apelidos… Quando eu era adolescente uma professora me comparou a uma colega que foi “Garota Caiobá”. Ela disse: “Se alguém como a Patrícia olha para a M. e vê tudo o que não é pode achar que é homossexual, mas pode ser que não seja o caso.” Detalhe: a professora (de redação) era psicóloga. Ela soltou este “psicologismo” não sei por que. Foi um comentário infeliz, é claro.
Na época do cursinho, durante uma aula sobre as várias síndromes genéticas, um professor fez um comentário pejorativo em relação à imagem de uma menina com S.T. Sei que duas amigas com S.T. passaram pela mesma situação. Naquela ocasião eu ainda não sabia qual era o meu problema genético. Eu me tratava com um endocrinologista e tinha apenas uma vaga noção de qual seria o meu problema de saúde. Eu sabia que era um problema genético e que por isso eu tinha baixa estatura, não poderia ter filhos e não tinha desenvolvido as características sexuais secundárias como as outras meninas. Naquele dia eu fiquei chocada ao pensar que o meu caso se enquadrava na descrição da Síndrome de Turner, pois a palavra síndrome tem uma conotação estigmatizante, quando na verdade apenas se refere a uma condição de saúde que pode acarretar uma variedade de sintomas. Algum tempo depois eu perguntei para o meu médico se tenho S.T. e ele confirmou. Acho que os médicos e a minha família quiseram me proteger do choque, entendo. Mas o choque inicial passou logo.
A minha vida afetiva foi conturbada. Tive alguns relacionamentos ruins e também tive uma ou outra relação que foram boas, mas acabaram não dando certo. As coisas só mudaram depois que a minha autoestima melhorou. Então eu acabei conhecendo o meu marido. Duas pessoas ficaram visivelmente surpresas quando eu contei que tinha me casado. Uma surpresa tola… Muitas pessoas que têm problemas de saúde sérios ou deficiências encontram o amor. Eu costumo dizer que o amor não é fácil de encontrar, mas existe para todos.
Profissionalmente as coisas não foram fáceis para mim. Nesta área da minha vida o preconceito também se fez sentir. Eu só consegui estabilidade profissional depois de passar em um concurso público.
Quando eu me queixei sobre o preconceito que sofri para um terapeuta ele disse que eu deveria ligar o botão do f*. Demorou algum tempo, mas eu acabei aprendendo a questionar certas expectativas sociais. Afinal, a nossa sociedade está doente. Alguém duvida disso? Sim, eu aprendi a dizer “dane-se” para os padrões estéticos e outras exigências sociais. Ainda bem!
Eu sempre me senti “diferente”, muito sozinha. Em um primeiro momento questionar a sociedade fez com que eu me sentisse ainda mais excluída, “à margem”. Com o tempo eu me conscientizei que todos nós temos os nossos problemas e muitas pessoas têm problemas psíquicos ou físicos sérios. Estar sujeito a ter uma deficiência, adoecer, envelhecer, tudo isso faz parte da condição humana. A busca pela “perfeição” é uma tentativa de negar esta verdade. Talvez esta seja uma das raízes do preconceito. O ego, a vontade de sentir-se “superior” às outras pessoas também pode levar ao preconceito.
As mulheres e garotas com S.T. têm problemas diferentes da maioria das pessoas, é verdade. Eu sei que os nossos desafios podem ser muito difíceis de enfrentar. É compreensível que nós tenhamos a impressão de que as nossas dificuldades são maiores do que as das outras pessoas, mas a verdade é que não sabemos o que está por trás da “máscara social” dos outros. E é inegável que muitas pessoas enfrentam sérios problemas. Claro, é verdade que a vida pode realmente ser mais fácil para alguns, mas eu me arrisco a dizer que para a grande maioria de nós viver é um grande desafio.
Depois de tais reflexões eu me senti parte da grande família humana. E me fez bem conhecer outras garotas e mulheres com S.T. Eu realmente não estou sozinha! Estamos juntas na luta contra o preconceito!