11 novembro 2023

Somos poderosas!

21:29 0 Comments


 

        A cultura transmite a imagem de pessoas altas como sendo poderosas, fortes. É claro que esta imagem não corresponde necessariamente à verdade. Eu sou baixinha, e daí? Eu me considero poderosa e por motivos mais sólidos.

        Melanie Gaydos, modelo, artista e atriz, é portadora de uma rara condição genética chamada displasia ectodérmica, síndrome que afeta principalmente os cabelos, pelos, dentes e unhas. Ela nos ofereceu uma lição de vida ao declarar que não trocaria as suas experiências de vida por outras, pois são as suas experiências, através das quais aprendeu muito. Assim como Melanie, eu valorizo tudo o que vivi.

          Eu sei que muitas pessoas que correspondem aos “padrões de beleza” transmitidos pela cultura têm uma vulnerabilidade, pois teriam dificuldade para lidar com a perda da “beleza”. E a “beleza” é transitória. Eu me sinto poderosa porque tenho esta consciência, porque já precisei lidar com o preconceito e isso me tornou mais forte. Sou poderosa, pois o fato de que sou uma pessoa “diferente” faz com que eu tenha um outro olhar em relação às pessoas que não correspondem aos “padrões”. Eu me conecto com elas, as respeito e as admiro.

         Acredito que a raiz do preconceito é a necessidade de negar a condição humana. Afinal, somos imperfeitos e estamos sujeitos a adoecer, ter uma deficiência, envelhecer e morrer. É claro que desejar um corpo “perfeito”, uma realidade “perfeita”, que se enquadre em uma visão de mundo limitada e preconceituosa, é ilusório. O simples fato de ter esta consciência me torna uma pessoa poderosa.

         Sou poderosa, pois sei que apesar de ser baixinha sou um mulherão, sou uma grande mulher. Nós, garotas e mulheres com Síndrome de Turner, somos mulheres poderosas!

08 abril 2023

O estranho relacionamento que temos com nosssos próprios corpos – estranhos

01:34 0 Comments


 



Eu, uma mulher com Síndrome de Turner, não poderia ter deixado de me sentir impactada pela peça de teatro E.L.A., da atriz, produtora e diretora Jessica Teixeira. Ela tem uma deficiência física causada por problemas na sua coluna. Jessica é extremamente talentosa e tem uma presença de palco incrível. Ela é uma grande artista. 

 

Durante a peça a atriz fala sobre o seu próprio corpo na terceira pessoa, Ele. Na verdade quem não estranha o seu próprio corpo? A peça traz elementos autobiográficos, informações sobre a composição química dos corpos humanos e relembra os ideais de beleza e de saúde greco-romanos (a "simetria", "mens sana in corpore sano"), assim como o extermínio de pessoas com deficiências físicas ou problemas mentais, realizado pelos nazistas. A nossa sociedade doentia, com a ditadura dos “padrões estéticos”, o capacitismo, o etarismo e a ilusória busca da “saúde perfeita” continua matando pessoas. A anorexia e a bulimia são doenças que matam e a depressão leva ao suicídio em casos extremos. A procura por cirurgias plásticas é grande e há aqueles que exageram, realizando vários procedimentos. Sabe-se que qualquer cirurgia apresenta riscos. Estes fatos são sinais da loucura da sociedade moderna.

 

O texto da peça traz uma frase impactante da mãe da atriz: “Você não sabe a dimensão do que significa estar viva.” Ela ressaltou que isto se aplica a todos nós. Eu chorei, pois cerca de 98% dos fetos com Síndrome de Turner não sobrevivem até o final da gestação. Fiz questão de dar um abraço na Jessica depois que a peça terminou.