Eu
sou uma pessoa “diferente”. Sou portadora da Síndrome de Turner,
por isso sou pequena (1,43 m) e não posso ter filhos. Falo por mim e
por todos os outros que são considerados “diferentes”, não é
fácil lidar com os olhares e palavras de estranhamento. Como se eu
não pudesse ser amada, como se eu fosse anormal, como se fosse algo
muito estranho alguém com a minha aparência querer cantar, como se
eu não pudesse ser considerada bonita, atraente… Como se… Acho
que não é necessário repetir o que eu ouvi ou descrever uma
situação em que recebi olhares de estranhamento. Esta atitude é
uma tentativa de seguir o caminho do amor, da compreensão. Mas de
qualquer maneira acho que é importante a discussão sobre o tema. Só
assim poderemos tentar mudar algo na nossa cultura, que está doente.
Os sinais de que a nossa sociedade está doente estão por toda a
parte: pessoas que se submetem a muitas cirurgias plásticas, garotas
(e alguns garotos) que sofrem de bulimia ou anorexia e assim por diante.
Acho
que devo simplesmente aceitar a ignorância de certas pessoas…
Ignorância no sentido de que elas não sabem o que é estar na minha
pele. Devo aceitar e ficar em paz. Estou procurando acessar aquele
cantinho do meu peito que é capaz de sentir compaixão. Sim, há uma
parte de mim (que por enquanto é muito pequena) que tem sabedoria
(“aquela que sabe”, como a chamou Clarissa Pinkola Estées,
autora do livro “Mulheres que correm com os lobos”), que sabe que
tudo o que se refere ao meu ego não tem tanta importância assim,
que sabe que, de um ponto de vista espiritual, sempre é possível
recomeçar. Se eu magoei alguém isto não quer dizer que eu tenha
causado um dano permanente, aquela pessoa tem uma longa jornada de
evolução à sua frente. Eu agi de cordo com a maturidade que eu
tinha na época e preciso me aceitar assim, imperfeita... humana. E
se eu fui ferida também tenho um longo caminho de aprendizado diante
de mim, que passa pelas lições do perdão e do auto-perdão. Do
ponto de vista da eternidade, o que acontece neste plano de
existência não significa nada… Eu tive apenas um vislumbre do que
é o perdão, apenas isso. Ainda sou uma pessoa como qualquer outra,
que sente culpa, que guarda mágoas…
Voltando
a escrever sobre o preconceito, parece que certas pessoas não
ouviram falar de várias histórias de superação, pessoas que estão
aí para demonstrar que o amor existe para todos. Ou as pessoas que tiveram atitudes preconceituosas
nunca pararam para pensar sobre o tema. Sim, o amor é difícil de
encontrar, é preciso antes de mais nada encontrá-lo dentro de si.
Mas, por outro lado, o amor existe para todos! Um exemplo é o filme
“As Sessões”, que é baseado em uma história real. O filme
trata do processo de amadurecimento e superação de um jornalista e
poeta tetraplégico, que tem dificuldades respiratórias. Outro
exemplo de superação é Nick Vuijicic, que nasceu sem os braços e
pernas. Ele é escritor e palestrante motivacional. A sua esposa é
linda e eles têm dois filhos. (Sorriso!)
Há
alguns dias eu assisti a um vídeo da Leandrinha Du Art, que me
marcou muito. Ela é uma mulher trans, cadeirante e portadora de uma
síndrome considerada rara, como eu. No vídeo Leandrinha conta que,
na época do colégio, o garoto mais bonito da turma sentiu-se
atraído por ela. Então Leandra pensou: “Se um garoto tão bonito
me quis é porque ele viu algo de belo em mim. Por que eu não posso
desejar a mim mesma, me considerar gostosa?” Claro, por que não?
Como disse Leandrinha, “mulher tem que ser alta, loira, cheia de
curvas?” Que história é essa? Sim, é óbvio que sexo tem a ver
com o corpo, mas o corpo não se limita à imagem. Isso sem falar que
a beleza está nos olhos de quem vê, é algo muito relativo. O sexo
envolve os outros sentidos (cheiro, tato, audição…), é evidente.
E o sexo vai muito além de tudo isso – é sentimento, energia,
poesia, troca… Como bem disse Arnaldo Jabor e cantou Rita Lee: "Amor é prosa, sexo é poesia." Obrigada por ter me levado a estas reflexões,
Leandrinha!
Leandrinha
é uma verdadeira sereia, como ela mesma se descreve. Com os seus
cabelos compridos e coloridos, com a descoberta do seu poder de
sedução a sereia veio à superfície e volta a mergulhar no seu
mundo misterioso quando assim quer. Agora a voz de outra sereia quer
se fazer ouvir, a minha voz. Sou uma sereia que certa vez tentou
seduzir com música e poesia... Não é qualquer pessoa que tem sensibilidade para valorizar isso. Eu, que
também sou “diferente”, descobri que posso ser desejada e amada.
Com a Leandrinha aprendi que falta eu me desejar e me amar mais!
(Sorriso!)

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