10 junho 2017

Nós, os “diferentes” e a sexualidade


Eu sou uma pessoa “diferente”. Sou portadora da Síndrome de Turner, por isso sou pequena (1,43 m) e não posso ter filhos. Falo por mim e por todos os outros que são considerados “diferentes”, não é fácil lidar com os olhares e palavras de estranhamento. Como se eu não pudesse ser amada, como se eu fosse anormal, como se fosse algo muito estranho alguém com a minha aparência querer cantar, como se eu não pudesse ser considerada bonita, atraente… Como se… Acho que não é necessário repetir o que eu ouvi ou descrever uma situação em que recebi olhares de estranhamento. Esta atitude é uma tentativa de seguir o caminho do amor, da compreensão. Mas de qualquer maneira acho que é importante a discussão sobre o tema. Só assim poderemos tentar mudar algo na nossa cultura, que está doente. Os sinais de que a nossa sociedade está doente estão por toda a parte: pessoas que se submetem a muitas cirurgias plásticas, garotas (e alguns garotos) que sofrem de bulimia ou anorexia e assim por diante. 

Acho que devo simplesmente aceitar a ignorância de certas pessoas… Ignorância no sentido de que elas não sabem o que é estar na minha pele. Devo aceitar e ficar em paz. Estou procurando acessar aquele cantinho do meu peito que é capaz de sentir compaixão. Sim, há uma parte de mim (que por enquanto é muito pequena) que tem sabedoria (“aquela que sabe”, como a chamou Clarissa Pinkola Estées, autora do livro “Mulheres que correm com os lobos”), que sabe que tudo o que se refere ao meu ego não tem tanta importância assim, que sabe que, de um ponto de vista espiritual, sempre é possível recomeçar. Se eu magoei alguém isto não quer dizer que eu tenha causado um dano permanente, aquela pessoa tem uma longa jornada de evolução à sua frente. Eu agi de cordo com a maturidade que eu tinha na época e preciso me aceitar assim, imperfeita... humana. E se eu fui ferida também tenho um longo caminho de aprendizado diante de mim, que passa pelas lições do perdão e do auto-perdão. Do ponto de vista da eternidade, o que acontece neste plano de existência não significa nada… Eu tive apenas um vislumbre do que é o perdão, apenas isso. Ainda sou uma pessoa como qualquer outra, que sente culpa, que guarda mágoas…

Voltando a escrever sobre o preconceito, parece que certas pessoas não ouviram falar de várias histórias de superação, pessoas que estão aí para demonstrar que o amor existe para todos. Ou as pessoas que tiveram atitudes preconceituosas nunca pararam para pensar sobre o tema. Sim, o amor é difícil de encontrar, é preciso antes de mais nada encontrá-lo dentro de si. Mas, por outro lado, o amor existe para todos! Um exemplo é o filme “As Sessões”, que é baseado em uma história real. O filme trata do processo de amadurecimento e superação de um jornalista e poeta tetraplégico, que tem dificuldades respiratórias. Outro exemplo de superação é Nick Vuijicic, que nasceu sem os braços e pernas. Ele é escritor e palestrante motivacional. A sua esposa é linda e eles têm dois filhos. (Sorriso!)

Há alguns dias eu assisti a um vídeo da Leandrinha Du Art, que me marcou muito. Ela é uma mulher trans, cadeirante e portadora de uma síndrome considerada rara, como eu. No vídeo Leandrinha conta que, na época do colégio, o garoto mais bonito da turma sentiu-se atraído por ela. Então Leandra pensou: “Se um garoto tão bonito me quis é porque ele viu algo de belo em mim. Por que eu não posso desejar a mim mesma, me considerar gostosa?” Claro, por que não? Como disse Leandrinha, “mulher tem que ser alta, loira, cheia de curvas?” Que história é essa? Sim, é óbvio que sexo tem a ver com o corpo, mas o corpo não se limita à imagem. Isso sem falar que a beleza está nos olhos de quem vê, é algo muito relativo. O sexo envolve os outros sentidos (cheiro, tato, audição…), é evidente. E o sexo vai muito além de tudo isso – é sentimento, energia, poesia, troca… Como bem disse Arnaldo Jabor e cantou Rita Lee: "Amor é prosa, sexo é poesia." Obrigada por ter me levado a estas reflexões, Leandrinha!

Leandrinha é uma verdadeira sereia, como ela mesma se descreve. Com os seus cabelos compridos e coloridos, com a descoberta do seu poder de sedução a sereia veio à superfície e volta a mergulhar no seu mundo misterioso quando assim quer. Agora a voz de outra sereia quer se fazer ouvir, a minha voz. Sou uma sereia que certa vez tentou seduzir com música e poesia... Não é qualquer pessoa que tem sensibilidade para valorizar isso. Eu, que também sou “diferente”, descobri que posso ser desejada e amada. Com a Leandrinha aprendi que falta eu me desejar e me amar mais! (Sorriso!)

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