29 junho 2017

20 junho 2017

Deficiência?

00:32 0 Comments


É muito comum que tenhamos uma impressão negativa a respeito das deficiências humanas. Isto é compreensível. Porém, costumamos não perceber as qualidades das pessoas chamadas “especiais”. Normalmente, eu não gosto deste tipo de eufemismo, mas acho que o termo “pessoas especiais”, no sentido literal, é muito adequado quando se trata de pessoas que têm alguma deficiência.

Há algum tempo, li um belo texto que procura explicar porque existem crianças especiais. Deus criou pessoas muito diferentes para que aprendessem umas com as outras e para que juntas formassem o seu corpo, tornando-se então “a sua imagem e semelhança”. Neste texto, mencionou-se uma doença chamada mielomelingocelle (o nome da enfermidade significa “mel que veio do céu”, consistindo em uma deformação da coluna). Decidi pesquisar um pouco sobre a doença na Internet, o que me levou a ler a história de Barbara. O simples fato de escrever o seu nome fez com que lágrimas aflorassem aos meus olhos. Ela é uma linda menina americana, que sofre daquele mal e de hidroencefalia.

Lembro-me nitidamente da sua foto. Como não amá-la? É difícil expressar em palavras o que senti. Olhar para a foto daquela menina é o suficiente para sentir a energia amorosa, comovente que emana dela. A sua mãe a considera uma criança como qualquer outra. Ela conta que Barbara é ao mesmo tempo inocente e manipuladora, que está indo bem nas suas aulas de natação especial e que a menina tem muitos admiradores. E a garota tem apenas 6 anos! Ler este depoimento me tocou, pois a mãe de Barbara não a considera “anormal”. Por que pessoas que não têm os problemas daquela menina são consideradas “estranhas” por muitos? Isto não faz sentido. É claro que não faz sentido, mas a nossa sociedade é realmente louca, difícil de se entender.

Escrever sobre Barbara fez com que eu me lembrasse da afetividade das pessoas portadoras da Síndrome de Down. De fato, são pessoas carinhosas, amorosas. Isto sem falar das histórias de superação de várias pessoas que têm esta Síndrome.

Eu comentei que me enterneci ao ler sobre a história de Barbara e ao ver a sua foto. Muitas vezes nós nos esquecemos do que é essencial: o amor. Este sentimento pode nos levar a enxergar as pessoas especiais de uma maneira diferente. Inclusive quem disse que todos nós temos que ter um papel ativo na sociedade? E as crianças e idosos? Inclusive estas pessoas são desvalorizadas.

Lembrei-me de um pequeno livro, “O Caminho da Paz”, de Henri J. M. Nouwen. Nesta obra, o autor, um sacerdote holandês, conta a história de Adam, um rapaz com sérios problemas físicos e cognitivos, que transmitia uma paz que não é deste mundo. Eu acredito que tudo no Universo tem um sentido, inclusive os mais sérios problemas. A nossa compreensão é que é limitada.

Também são maravilhosas as pessoas portadoras da Síndrome de Williams. Estas pessoas têm sérias dificuldades para executar tarefas do cotidiano, tais como comprar algo e conferir o troco. Mas elas são sociáveis, afetuosas e  muitas têm um talento excepcional para a música.

E quanto a nós, mulheres portadoras da Síndrome de Tuurner? Muitas de nós não têm outras características da síndrome além da infertilidade e da baixa estatura. Outras têm problemas de saúde leves, que podem ser tratados. Então em muitos casos a Síndrome de Turner não pode ser considerada uma deficiência. Somos lutadoras. Com o tempo acabamos aprendendo que a aparência não é o que realmente importa na vida, não discriminamos ninguém. O que dá sentido à vida é o bem que fazemos e crescermos como pessoas, não é verdade? Então nós, mulheres com Turner, nos esforçamos para desenvolver várias qualidades, para nos tornarmos seres humanos melhores. Já conheci várias mulheres como eu e elas são realmente pessoas maravilhosas.

Escutei ou li em algum lugar algo mais ou menos assim: "Deficiência? O que é deficiência? Quem não tem suas deficiências?" Isto é verdade... Todos nós temos nossas deficiências, nossos defeitos, nossas falhas. A deficiência, a imperfeição fazem parte da condição humana. Como disse a jornalista Leandra Migotto Certeza* em uma palestra realizada em 2015, na REATECH - Feira Internacional de Tecnologia, Inclusão e Acessibilidade**, quem não está sujeito a adoecer, sofrer um acidente ou envelhecer e ter problemas de saúde relacionados à idade avançada? Encarar as dificuldades que fazem parte da vida e procurar aceitá-las pode fazer com que tenhamos um pouco mais de paz de espírito e empatia.

Sei que o meu texto pode soar piegas para muitos. Não tenho a intenção de romantizar o que as pessoas com deficiências e seus familiares vivenciam. É claro que eu sei das dificuldades. Mas... também é importante procurar enxergar outros aspectos da mesma situação.

Enxergar o próximo de outra maneira pode ser maravilhoso! Podemos abrir os olhos para ver Deus em nossos semelhantes... Namastê! “O Deus que habita no meu coração, saúda o Deus que habita no seu coração”.

https://www.youtube.com/watch?v=a9xC5DOLiQY
** https://www.youtube.com/watch?v=HZt_eEy4-34
 

19 junho 2017

Empoderamento

23:48 0 Comments
mulheres no sertanejo 5

    Acho que esta é uma questão fundamental: o que é ser uma pessoa empoderada? Creio que tudo começa com o amor próprio. E, afinal, o que significa ter uma boa autoestima? Parece-me que um dos fundamentos do amor próprio é tomar posse de si mesmo(a), ser Senhor(a) de si mesmo(a). O autoconhecimento nos leva a este caminho. E a consciência de que as opiniões dos outros não importam tanto assim faz com que continuemos no mesmo sentido. Sim, as opiniões dos outros não importam tanto assim, pois cada um enxerga a realidade através de suas “lentes mentais”. Por exemplo, se eu não correspondo aos padrões de beleza aceitos pela nossa cultura certamente não vou chamar a atenção de alguém que valorize isto. Ou se eu sou muito romântica, sensível, talvez não desperte o interesse de uma pessoa que seja extremamente racional. Então faz sentido se preocupar muito como o que os outros pensam sobre nós ou com certas “exigências” da sociedade? Acho que não. Aliás, acho que é essencial questionar certos valores aceitos pela sociedade, ter opiniões próprias. Isto também leva ao empoderamento! A nossa sociedade está doente. Quem duvida disso? Os sinais estão por toda a parte.

    Tudo isso soa arrogante? Sim, talvez. Mas trata-se de uma arrogância saudável. É claro que uma atitude saudável para consigo e diante da vida também inclui a humildade. Ou seja, devemos ser capazes de perceber quando as opiniões dos outros devem ser levadas em consideração, pois apontam para os nossos defeitos, aspectos em relação aos quais podemos melhorar. Tudo isto faz parte do autoconhecimento, da construção do amor próprio e do processo de empoderamento. Aceitar as próprias falhas é o primeiro passo para a mudança, para a evolução. Como ensina o I-Ching, a verdadeira humildade, a verdadeira autoestima consiste em diminuir o que é exagerado em nós e valorizar qualidades que temos, muitas vezes menosprezadas. Ter uma noção de quem se é, o mais próxima possível da realidade, aceitar e valorizar isto – aí reside o verdadeiro amor próprio.

    O leitor talvez tenha a impressão de que eu me considero sábia, alguém que tem algo para ensinar… Não, eu tenho consciência de que sou uma pessoa como qualquer outra. Eu também estou aprendendo, sou apenas mais uma caminhante. Acho que estas reflexões são válidas, mas não têm nada de original. Mencionei o I-Ching… Além disso, as ideias de questionar sempre e da busca do autoconhecimento encontram-se nos fundamentos da filosofia.

    Agora vou abordar outra questão. Quando eu era adolescente me aventurei a ler “A Insustentável Leveza do Ser”, de Milan Kundera. Na época eu não tinha maturidade para absorver o conteúdo do livro, em toda a sua profundidade. Em um trecho da obra um dos personagens observa que a bondade de outro é a sua fraqueza. Na ocasião eu interrompi a leitura e me indaguei: “Será que a bondade pode ser fraqueza?” Hoje, mais madura, sei que não. Ser “bonzinho” pode levar uma pessoa a ser explorada, manipulada por outras. Mas pessoas boas, como Martin Luther King, Nelson Mandela, Mahatma Gandhi ou Madre Teresa de Calcutá não eram fracas, pelo contrário. Não vamos entrar na seara de que estas pessoas tinham um lado que não é admirável. Sim, é claro que elas tinham defeitos, isso faz parte da condição humana. O fato é que estas pessoas tinham um lado admirável e não eram fracas, de maneira alguma. Aliás, com o passar dos anos acabei percebendo que a “maldade” de certas pessoas é uma couraça, um disfarce para aparentar força e esconder uma profunda fragilidade. E a vulnerabilidade também faz parte da condição humana… Ter consciência disso já nos torna pessoas mais fortes, mais empoderadas.

    A conclusão é que buscarmos o autoconhecimento e a evolução nos leva ao empoderamento. E nem poderia ser diferente. Se assim fosse soaria como algo muito estranho, não é verdade?

Sugestão de leitura:
Empoderamento da Imagem para a mulher com ST (Luciana Martins Alves)http://sgabtoasw.blogspot.com.br/2016/12/empoderamento-da-imagem-para-mulher-com.html

10 junho 2017

Nós, os “diferentes” e a sexualidade

18:15 0 Comments

Eu sou uma pessoa “diferente”. Sou portadora da Síndrome de Turner, por isso sou pequena (1,43 m) e não posso ter filhos. Falo por mim e por todos os outros que são considerados “diferentes”, não é fácil lidar com os olhares e palavras de estranhamento. Como se eu não pudesse ser amada, como se eu fosse anormal, como se fosse algo muito estranho alguém com a minha aparência querer cantar, como se eu não pudesse ser considerada bonita, atraente… Como se… Acho que não é necessário repetir o que eu ouvi ou descrever uma situação em que recebi olhares de estranhamento. Esta atitude é uma tentativa de seguir o caminho do amor, da compreensão. Mas de qualquer maneira acho que é importante a discussão sobre o tema. Só assim poderemos tentar mudar algo na nossa cultura, que está doente. Os sinais de que a nossa sociedade está doente estão por toda a parte: pessoas que se submetem a muitas cirurgias plásticas, garotas (e alguns garotos) que sofrem de bulimia ou anorexia e assim por diante. 

Acho que devo simplesmente aceitar a ignorância de certas pessoas… Ignorância no sentido de que elas não sabem o que é estar na minha pele. Devo aceitar e ficar em paz. Estou procurando acessar aquele cantinho do meu peito que é capaz de sentir compaixão. Sim, há uma parte de mim (que por enquanto é muito pequena) que tem sabedoria (“aquela que sabe”, como a chamou Clarissa Pinkola Estées, autora do livro “Mulheres que correm com os lobos”), que sabe que tudo o que se refere ao meu ego não tem tanta importância assim, que sabe que, de um ponto de vista espiritual, sempre é possível recomeçar. Se eu magoei alguém isto não quer dizer que eu tenha causado um dano permanente, aquela pessoa tem uma longa jornada de evolução à sua frente. Eu agi de cordo com a maturidade que eu tinha na época e preciso me aceitar assim, imperfeita... humana. E se eu fui ferida também tenho um longo caminho de aprendizado diante de mim, que passa pelas lições do perdão e do auto-perdão. Do ponto de vista da eternidade, o que acontece neste plano de existência não significa nada… Eu tive apenas um vislumbre do que é o perdão, apenas isso. Ainda sou uma pessoa como qualquer outra, que sente culpa, que guarda mágoas…

Voltando a escrever sobre o preconceito, parece que certas pessoas não ouviram falar de várias histórias de superação, pessoas que estão aí para demonstrar que o amor existe para todos. Ou as pessoas que tiveram atitudes preconceituosas nunca pararam para pensar sobre o tema. Sim, o amor é difícil de encontrar, é preciso antes de mais nada encontrá-lo dentro de si. Mas, por outro lado, o amor existe para todos! Um exemplo é o filme “As Sessões”, que é baseado em uma história real. O filme trata do processo de amadurecimento e superação de um jornalista e poeta tetraplégico, que tem dificuldades respiratórias. Outro exemplo de superação é Nick Vuijicic, que nasceu sem os braços e pernas. Ele é escritor e palestrante motivacional. A sua esposa é linda e eles têm dois filhos. (Sorriso!)

Há alguns dias eu assisti a um vídeo da Leandrinha Du Art, que me marcou muito. Ela é uma mulher trans, cadeirante e portadora de uma síndrome considerada rara, como eu. No vídeo Leandrinha conta que, na época do colégio, o garoto mais bonito da turma sentiu-se atraído por ela. Então Leandra pensou: “Se um garoto tão bonito me quis é porque ele viu algo de belo em mim. Por que eu não posso desejar a mim mesma, me considerar gostosa?” Claro, por que não? Como disse Leandrinha, “mulher tem que ser alta, loira, cheia de curvas?” Que história é essa? Sim, é óbvio que sexo tem a ver com o corpo, mas o corpo não se limita à imagem. Isso sem falar que a beleza está nos olhos de quem vê, é algo muito relativo. O sexo envolve os outros sentidos (cheiro, tato, audição…), é evidente. E o sexo vai muito além de tudo isso – é sentimento, energia, poesia, troca… Como bem disse Arnaldo Jabor e cantou Rita Lee: "Amor é prosa, sexo é poesia." Obrigada por ter me levado a estas reflexões, Leandrinha!

Leandrinha é uma verdadeira sereia, como ela mesma se descreve. Com os seus cabelos compridos e coloridos, com a descoberta do seu poder de sedução a sereia veio à superfície e volta a mergulhar no seu mundo misterioso quando assim quer. Agora a voz de outra sereia quer se fazer ouvir, a minha voz. Sou uma sereia que certa vez tentou seduzir com música e poesia... Não é qualquer pessoa que tem sensibilidade para valorizar isso. Eu, que também sou “diferente”, descobri que posso ser desejada e amada. Com a Leandrinha aprendi que falta eu me desejar e me amar mais! (Sorriso!)